domingo, 18 de novembro de 2012

Pão de Açúcar: O Velho Chico pede socorro


Os frequentadores da Praia do Velho Chico, na cidade de Pão de Açúcar, estão praticando crimes ambientais considerados graves contra o já tão agredido e desrespeitado rio São Francisco. Eles consomem os mais diversos tipos de bebidas e alimentos e lançam as embalagens na areia e dentro do rio. A quantidade de lixo é tão grande que os garis da Prefeitura não estão conseguindo recolher toda a sujeira espalhada pelo vento.
Segundo informações obtidas junto a Secretaria de Viação, Obras e Serviços Públicos (SEVOSP), todos os dias, pela manhã e tarde, uma equipe de garis varre e recolhe o lixo acumulado ao longo da praia, mas a situação está ficando sem controle porque ao mesmo tempo em que os garis recolhem a sujeira, os frequentadores jogam mais sujeira na areia e dentro da água.

A falta de educação ambiental dos frequentadores da praia está provocando uma sujeira incontrolável que vem causando sérios prejuízos à vida do Velho Chico. E a agressão ambiental não é pela falta de orientação porque a Prefeitura de Pão de Açúcar, ainda que dentro dos seus limites, vem fazendo a sua parte, pois não se trata de uma obrigação única e exclusiva do Poder Executivo Municipal. As duas emissoras de rádio da cidade têm veiculado mensagens de conscientização sobre a preservação do meio ambiente, principalmente no tocante ao rio.
Crédito: Helio Fialho

Algumas secretarias municipais, a exemplo da SECULTE, SEVOSP e Meio Ambiente, periodicamente providenciam as confecções de faixas, cartazes e panfletos educativos sobre o tema. Alguns mutirões para a limpeza do rio também já foram realizados pelos órgãos públicos municipais ligados diretamente à Prefeitura de Pão de Açúcar e, até mesmo, por entidades e escolas preocupadas com o meio ambiente, porém a degradação parece não ter fim.

O rio São Francisco é um patrimônio natural público e, por esta razão, a coletividade têm o direito de usufruir e o dever de cuidar. A criação de novas leis não será a solução para este gravíssimo problema ambiental que vem prejudicando no presente e compromete o futuro do Velho Chico, pois já existe uma vasta e rigorosa legislação ambiental no Brasil, até mesmo considerada por muitos juristas como extremamente revanchista e implacável, que, apesar do rigor expresso nos textos, na prática a realidade é outra, isto é, as leis estão deixando de ser aplicadas pelas autoridades competentes.

O autor desta matéria, para melhor pormenorizar a problemática, realizou algumas caminhadas, nos turnos matutino e vespertino, na praia. Ainda tomou banho nas águas cristalinas do agonizante Velho Chico e pôde constatar uma série de preocupantes problemas causados pelo homem civilizado ou agente da destruição.

Este blogueiro, durante as poucas horas que permaneceu na beira do rio, flagrou a prática de diversos crimes ambientais, como por exemplo: um grupo de pessoas extraindo areia da praia e jogando dentro da carroceria de um caminhão; um carroceiro despejando algumas cargas de resto de construção(metralha), sobre a areia da praia; alguns pescadores chegando da pescaria e trazendo em seus barcos peixes graúdos em grande quantidade, neste período em que a pesca está proibida no rio São Francisco porque é época da desova e reprodução das espécies.

O início

A devastação começou nos anos de 1950 e teve prosseguimento nos idos de 1960, 1970 e 1980, com as construções de barragens, vindo o homem a controlar, a partir destas obras, a vazão do rio, a exemplo de Paulo Afonso, Três Marias, Sobradinho, Itaparica e Xingó. Além de terem provocado sérios impactos ambientais, os prejuízos causados por estas barragens são considerados incalculáveis, pois destruíram o rico bioma, a economia e a cultura de toda a população ribeirinha.

E pouco ou quase nada o Governo Federal tem feito para compensar os irrecuperáveis prejuízos causados. E como se não bastasse, este mesmo governo vem executando o nefasto e polêmico projeto de transposição das águas do rio São Francisco e, ao que tudo indica, nos próximos anos irá construir, também, a indesejada Barragem Traíras, no município de Pão de Açúcar.

Certamente a falta de educação ambiental dos moradores ribeirinhos e das populações do Sertão e Agreste contribuirá significativamente para tornar realidade esta obra que, segundo os ambientalistas, virá como um tiro de misericórdia no agonizante e fragilizado Velho Chico. Ao longo dos anos, múltiplas e violentas agressões são praticadas continuamente contra o rio São Francisco que, indefeso, paciente e silencioso, presencia a covarde omissão da sociedade.

Migração de Caracarás

Até o ano de 2010 era comum os pão-de-açucarenses verem uma revoada de urubus em direção à praia central da cidade, porém de dois anos para cá, os urubus deram lugar aos caracarás ou carcarás que agora migraram para as areias do Velho Chico. Todas as manhãs as aves de rapina invadem a praia em busca de alimentos. Estes, diferentemente das garças que aparecem constantemente para pescar seus alimentos nas águas do rio, estão se alimentando no lixo deixado na praia pelos banhistas. Geralmente suas presas são pequenos animais que se misturam aos restos de alimentos jogados sobre a areia.

A migração dos carcarás pode ser interpretada pelos ambientalistas como um grito de socorro desprendido pelo Velho Chico, pois o motivo principal da chegada destas aves certamente é a grande quantidade de lixo espalhada pelo vento ao longo da praia, principalmente nos dias seguintes aos que apresentam maiores fluxos de banhistas, isto é, aos domingos e feriados. E sempre que o rio enche vomita na areia uma pequena quantidade do lixo que os banhistas jogam nas suas águas nos finais de semana, ficando a sujeira exposta e denunciando a agressão do homem.

Mobilização

O problema da sujeira na praia tem crescido tanto que alguns órgãos municipais já estudam novas estratégias para combater a agressão ambiental, pois já não está sendo suficiente a limpeza diária promovida pela Secretaria de Viação, Obras e Serviços Públicos (SEVOSP). “As pessoas que se beneficiam do rio precisam fazer também a parte delas”, disse o diretor Aderaldo Araújo Bezerra, ele que é o responsável pelo setor de limpeza pública da SEVOSP.

Na manhã desta sexta-feira (16), logo após uma visita a praia do Velho Chico, o titular da SECULTE, também autor desta matéria, telefonou para o presidente da Associação dos Bares da Orla e cobrou uma ação mais eficaz da parte dos barraqueiros, objetivando ajudar a salvar o rio. Trabalho semelhante também será realizado junto à Colônia Z 20 de Pescadores e à Associação dos Carroceiros de Pão de Açúcar, pois os carroceiros também dependem do rio para a sobrevivência.

Além das ações conjuntas realizadas pela Secretaria de Viação, Obras e Serviços Públicos, Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Esporte e Comunicação, Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Conselho Municipal de Meio Ambiente, outros órgãos pertencentes ao Poder Público serão provocados. Estão na lista o IBAMA, IMA, Ministério Público, Câmara de Vereadores, além de entidades, escolas públicas e privadas e empresas de comunicação.

Nos primeiros contatos mantidos pelo autor desta matéria, nesta sexta-feira (16), em plena praia central, com o presidente Val, da Colônia de Pescadores, e com o diretor Aderaldo Araújo Bezerra (SEVOSP), uma crítica unânime foi direcionada aos banhistas que se deslocam de outros municípios já trazendo a farofa e a bebida para consumirem na praia e que, ao invés de deixarem dinheiro no comércio local, deixam somente o lixo espalhado na beira do rio. O quadro é bastante crítico e revoltante ao mesmo tempo.

Todos gozam do direito constitucional de ir e vir e jamais serão impedidos de frequentar as praias de Pão de Açúcar, mas é preciso frequentar com muita responsabilidade. E essa responsabilidade significa o dever de preservar o Velho Chico e não jogar lixo na praia. Deixar garrafas peti, sacos plásticos, embalagens metálicas na praia, quebrar vidros e enterrar na areia do rio é, no mínimo, um crime ambiental praticado com frieza e maldade, que precisa ser combatido com muito rigor, pois o Velho Chico é uma dádiva de Deus, que continua dando vida, apesar de estar morrendo a cada dia.

Fonte: Helio Fialho / Minuto Sertão

Nenhum comentário:

Postar um comentário